A química que acontece dentro do fio
Descolorir é oxidar. O produto de descoloração combina dois componentes que trabalham juntos: um agente oxidante, normalmente peróxido de hidrogênio, e uma base alcalina, tipicamente amônia ou uma alcanolamina, que abre a cutícula para permitir que o oxidante chegue ao córtex.
O peróxido de hidrogênio em meio alcalino não age sozinho: ele se dissocia e forma o ânion peridroxila, a espécie química responsável por atacar a melanina, junto com radicais hidroxila [4]. Segundo material técnico apresentado ao painel do CIR, as formulações permanentes trabalham com peróxido de hidrogênio na faixa de 3% a 4,5% e com agentes alcalinizantes que elevam o pH a valores próximos de 10 [5].
Esse pH é a chave de tudo. Em pH alto, a cutícula se abre — e ela precisa se abrir, senão o oxidante não chega ao pigmento. O problema é que essa mesma abertura é o que permite dano em cascata ao resto da fibra. A cutícula não é uma casca uniforme: suas subcamadas diferem muito em composição, e a camada interna (endocutícula) tem teor de cistina baixíssimo — cerca de 3% —, o que a torna a mais propensa a inchar em água. É por essa via desigual que água, perms e descoloração atacam a cutícula de forma irregular [20].
A melanina e a origem do amarelo
A cor do cabelo vem de dois polímeros de melanina. A eumelanina produz tons de marrom escuro a preto; a feomelanina produz tons de vermelho e amarelo, e seu tom amarelado vem da incorporação de aminoácidos que contêm enxofre, como a cisteína [1]. A proporção entre os dois é o que dá o espectro de cores do cabelo humano [2].
Descolorir não “tira” a cor. Ele destrói o pigmento em etapas. Estudos com microscopia eletrônica de transmissão mostram que os grânulos de melanina se degradam progressivamente — e que essa degradação começa já nas condições mais suaves de clareamento [3]. A melanina residual vai passando por estados de oxidação cada vez mais avançados, e cada estado corresponde a uma cor.
Daí a sequência que todo profissional conhece: marrom, vermelho, laranja, amarelo, amarelo muito claro. O amarelo não é um erro nem sujeira — é a última cor que sobra antes do pigmento praticamente desaparecer. É o mesmo fenômeno descrito na literatura de mercado em francês, onde se fala em tons “jaunâtre” (amarelado) resultantes de descoloração insuficiente [7] [6].
Um ponto importante de honestidade técnica: não encontramos fonte revisada por pares que quantifique a cor exata de fundo para cada nível de clareamento. As tabelas de “fundo de clareamento” que circulam (nível 5 = laranja, nível 7 = amarelo, etc.) são convenções de mercado, amplamente usadas na prática, mas não são medidas experimentais publicadas. Isso não as torna inúteis — torna-as heurísticas, não dados.
O que é fundo de clareamento
Fundo de clareamento é o tom que permanece no fio depois que a melanina foi oxidada até certo ponto. É o ponto de partida real para a cor final.
Isso importa porque a cor que você vê no resultado é a combinação de dois fatores: o pigmento que ficou no fio (fundo) e o pigmento que você adicionou (tinta ou matizador). Se o fundo é amarelo, qualquer tonalidade fria aplicada sobre ele vai tender ao esverdeado ou ao acinzentado, dependendo da proporção. É por isso que a matização funciona: ela adiciona o complementar na roda de cores para neutralizar [8].
E é por isso que prometer platinado a partir de cabelo escuro em uma sessão é, na maioria dos casos, uma promessa que a química não sustenta.
O preço que a fibra paga
Aqui os números são duros e vale conhecê-los antes de decidir.
Um levantamento caracterizando cabelo descolorido reporta queda de aproximadamente 48% na cistina nativa e de cerca de 60% na resistência à tração em fio úmido após clareamento [9]. A cistina é a ligação que dá resistência mecânica ao fio — perdê-la é perder estrutura.
Há mais:
- A perda de proteína não é superficial. O dano oxidativo inclui proteínas do córtex, não só da cutícula [3].
- O ácido cisteico é um marcador consolidado desse dano oxidativo, usado para quantificar o grau de agressão ao fio [10].
- O córtex desenvolve falhas internas. Análise por microscopia mostrou alterações na microestrutura interna do fio em clareamento excessivo [11].
- Aminoácidos específicos são destruídos. O triptofano é um dos alvos, e sua determinação é usada justamente para medir esse tipo de perda [12].
- O dano se acumula. Estudo que quantificou os efeitos de tingimentos repetidos mostrou mudanças morfológicas, mecânicas e químicas progressivas [13]. E avaliações de dano químico confirmam o impacto mecânico combinado de descoloração e coloração [14].
Bond builders: o que realmente foi demonstrado
Os produtos “reconstrutores de ligações” prometem religar pontes dissulfeto rompidas. A patente original da classe descreve métodos para tratar cabelo usando compostos com dois grupos funcionais capazes de reagir com tióis [17], e artigos revisados por pares descrevem esse mecanismo — mas atribuindo-o a patentes e fornecedores, sem demonstrá-lo de forma independente [16].
O problema é que existe evidência direta contra a interpretação otimista. Um estudo estrutural de 2021 tratou cabelo danificado com exatamente essa classe de aceptores de Michael e concluiu que nenhum dos tratamentos aumentou o conteúdo de pontes dissulfeto do córtex, e que os resultados não podem ser interpretados como evidência direta do cross-linking alegado. O que se observou foi rearranjo de dissulfetos e melhora morfológica de superfície [15].
Como interpretar isso de forma justa: não é que esses produtos não façam nada. Há melhora de superfície e de manuseio, e isso é real. O que não está demonstrado é o mecanismo que dá nome ao produto — e é o mecanismo que sustenta o preço.
Se o objetivo é reduzir dano, a evidência aponta para intervenções mais simples e bem estabelecidas, incluindo tratamentos à base de proteínas e polissacarídeos aplicados antes ou durante processos químicos agressivos [14].
Por que fracionar as sessões
Juntando as peças, a razão de fracionar não é burocracia do salão: é que o pigmento sai mais devagar do que a estrutura aguenta. Cada passada de descoloração remove cistina. Se você tentar chegar ao amarelo muito claro em uma sessão a partir de cabelo escuro, o custo estrutural total passa do que a fibra suporta — e o resultado é quebra, não cor clara.
Fracionar permite reconstruir entre as etapas, avaliar a resposta real do fio e ajustar. O intervalo, o número de sessões e a força do produto dependem do histórico químico, do fundo desejado e da resistência medida do fio — não de uma regra fixa.
Segurança, regulamentação e alergia
Colorir não é só questão estética. No Brasil, a rotulagem de produtos cosméticos é regida pela RDC nº 907/2024, que substituiu a RDC nº 752/2022 e define as exigências de advertência e as regras de rotulagem, incluindo a obrigatoriedade de rotulagem em português [18].
O alerta de reação alérgica não é decorativo. A parafenilenodiamina (PPD), presente em tinturas permanentes, está entre os alérgenos de contato mais relevantes nesse contexto, com risco ocupacional documentado para profissionais que trabalham com tintura e possibilidade de reações graves em pessoas sensibilizadas [19]. Sensibilização pode surgir depois de anos de uso sem sintoma — por isso o teste com antecedência é importante mesmo para quem “nunca teve problema”.
Quando não descolorir
Existem situações em que a resposta correta é não fazer:
- Fio com histórico de quebra recente ou elasticidade muito reduzida.
- Cabelo que passou por alisamento com tioglicolato ou produtos à base de formol nos meses anteriores.
- Fio que já está no limite e cujo resultado desejado exige mais de duas passadas.
- Couro cabeludo com lesão ativa ou sensibilidade conhecida a PPD.
Nesses casos, o caminho costuma ser trabalhar a saúde do fio primeiro e clarear depois — ou ajustar a expectativa de cor.
Se o seu objetivo é clarear com segurança, os serviços de mechas e luzes e coloração são onde esse trabalho acontece, e sempre a partir de avaliação. Para entender o que fazer depois, o artigo sobre como manter as mechas entre as visitas reúne os cuidados com comprovação.
Perguntas frequentes
Dúvidas sobre este assunto
Por que meu cabelo fica amarelo depois da descoloração?
Porque a melanina não desaparece de uma vez. Ela é oxidada progressivamente, e cada etapa da degradação deixa um resíduo de cor diferente: primeiro o marrom escuro, depois vermelho, laranja e por fim amarelo claro. O amarelo é a última cor a sair, e é o que resta quando o clareamento para antes do ponto em que ele desapareceria. Matizar neutraliza esse amarelo, mas o pigmento continua lá até ser destruído.
Dá para chegar ao platinado em uma sessão só?
Em geral não, de forma segura. Cada sessão de descoloração remove cistina do fio — um estudo clássico reporta queda de cerca de 48% na cistina nativa e de 60% na resistência à tração em fio úmido depois do clareamento. Fazer isso repetidas vezes na mesma sessão destrói a fibra antes de o pigmento sair. Por isso profissionais fracionam em etapas com intervalo, reconstruindo o fio entre elas.
Bond builder realmente reconstrói as ligações do cabelo?
A evidência é mais frágil do que o marketing sugere. Um estudo estrutural revisado por pares, publicado em 2021, tratou cabelo danificado com os aceptores de Michael usados nesse tipo de produto e encontrou que nenhum tratamento aumentou o conteúdo de pontes dissulfeto do córtex — os autores afirmam explicitamente que seus resultados não podem ser interpretados como evidência direta da reação de cross-linking alegada. Foram observados rearranjos de dissulfeto e melhora morfológica de superfície. Isso não significa que o produto não sirva para nada, mas o mecanismo anunciado não foi demonstrado.
Preciso fazer teste de toque antes de colorir?
A rotulagem de produtos de coloração no Brasil exige advertência sobre a possibilidade de reação alérgica, e o teste de sensibilidade costuma vir indicado pelo fabricante. Isso não é formalidade: a parafenilenodiamina (PPD), presente em tinturas permanentes, é um dos alérgenos de contato mais relevantes nesse contexto. Alergia a tintura de cabelo pode se desenvolver após anos de uso sem problema, e reações podem ser graves. Sempre faça o teste com a antecedência que o fabricante indica.
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Referências e fontes consultadas
Cada afirmação técnica desta página está vinculada a uma das fontes abaixo. Preferimos referências primárias (artigos revisados por pares, livros técnicos e normas vigentes) e sinalizamos quando a fonte é material de fabricante ou veículo de imprensa.
- Livro técnico
StatPearls / NCBI Bookshelf. Biochemistry, Melanin (NBK459156). US National Library of Medicine, 2024.
- Artigo revisado por pares
Ito S, Wakamatsu K. Diversity of human hair pigmentation as studied by chemical analysis of eumelanin and pheomelanin. Journal of the European Academy of Dermatology and Venereology 2011;25:1369–1380, 2011.
- Artigo revisado por pares
Grosvenor AJ, Deb-Choudhury S, Middlewood PG, Thomas A, Lee E, Vernon JA, Woods JL, Taylor C, Bell FI, Clerens S. The physical and chemical disruption of human hair after bleaching — studies by transmission electron microscopy and redox proteomics. International Journal of Cosmetic Science 2018;40(6):536–548, 2018.
pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30229956 DOI: 10.1111/ics.12495
Resumo obtido via Europe PMC.
- Artigo revisado por pares
Smith RAW, Garrett B, Naqvi KR, Fülöp A, Godfrey SP, Marsh JM, Chechik V. Mechanistic insights into the bleaching of melanin by alkaline hydrogen peroxide. Free Radical Biology & Medicine 2017;108:110–117, 2017.
europepmc.org/article/MED/28323131 DOI: 10.1016/j.freeradbiomed.2017.03.014
- Imprensa técnica
Goebel C. (Cosmetics Europe). Chemistry of Hair Coloring — apresentação ao Expert Panel do CIR. Cosmetic Ingredient Review (CIR), 4 de dezembro de 2017, 2017.
cir-safety.org/sites/default/files/Chemistry%20of%20Hair%20Coloring%20-%20Carsten%20Goebel.pdf
Material técnico-regulatório apresentado por representante da indústria ao painel do CIR.
- Material de fabricante
Franck Provost Expert (site editorial da rede de salões). Décoloration, tout ce qu'il faut savoir. Franck Provost Expert, 2025.
www.franckprovost-expert.com/le-mag-expert/coloration/decoloration-tout-ce-qu-il-faut-savoir
Fonte em francês. Conteúdo editorial de rede de salões — descreve a progressão de cor, mas não é literatura revisada por pares.
- Material de fabricante
Niwel Beauty. Tout ce que vous devez savoir sur la décoloration de cheveux. Niwel Beauty, 2024.
www.niwelbeauty.com/blogs/conseils/tout-ce-que-vous-devez-savoir-sur-la-decoloration-de-cheveux
Fonte em francês. Blog de marca; usada apenas para confirmar a terminologia de mercado da progressão de cor.
- Material de fabricante
Typology. Quelle est la composition d'une coloration capillaire ?. Typology — Le Carnet, 2024.
www.typology.com/carnet/quelle-est-la-composition-d-une-coloration-capillaire
Fonte em francês. Conteúdo de marca.
- Artigo revisado por pares
Gillece T, Senak L, et al. Characterization of Bleached Hair: Vibrational Spectroscopy, Thermal Analysis, and Determination of Effective Damage Factor. Journal of Cosmetic Science 2021;72:519–546, 2021.
library.scconline.org/v072n05/29
Os valores de queda de resistência e de cistina são os reportados por Robbins, discutidos na introdução deste trabalho.
- Artigo revisado por pares
Grosjacques C, Babiel S, Hodes J, Bobier A, Cavagnino A, Baraibar MA. Carbonylation of hair proteins: a robust biomarker of molecular and structural oxidative damage in hair fibres. International Journal of Cosmetic Science 2025;47(4):604–625, 2025.
pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12319463 DOI: 10.1111/ics.13052
- Artigo revisado por pares
Kim DH, Oh S, Chang BS. Effects of excessive bleaching on hair: comparative analysis of external morphology and internal microstructure. Applied Microscopy 2024, 2024.
- Artigo revisado por pares
Dario MF, Freire TB, Pinto CASO, Prado MSA, et al. Tryptophan and kynurenine determination in human hair by liquid chromatography. Journal of Chromatography B 2017;1065–1066:59–62, 2017.
pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28946126 DOI: 10.1016/j.jchromb.2017.09.020
- Artigo revisado por pares
Kwon S, Lee S, Jang J, Lee JB, Kim KS. Quantifying the effects of repeated dyeing: Morphological, mechanical, and chemical changes in human hair fibers. Heliyon 2024;10(18):e37871, 2024.
www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2405844024139023 DOI: 10.1016/j.heliyon.2024.e37871
Resumo consultado.
- Artigo revisado por pares
Camargo FB, Minami MM, Rossan MR, Magalhães WV, Porto Ferreira VT, Maia Campos PMBG. Prevention of chemically induced hair damage by means of treatment based on proteins and polysaccharides. Journal of Cosmetic Dermatology 2022;21(2):827–835, 2022.
pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33834606 DOI: 10.1111/jocd.14148
Resumo obtido via Europe PMC.
- Artigo revisado por pares
Di Foggia M, Boga C, Micheletti G, Nocentini B, Taddei P. Structural investigation on damaged hair keratin treated with α,β-unsaturated Michael acceptors used as repairing agents. International Journal of Biological Macromolecules 2021;167:620–632, 2021.
cris.unibo.it/handle/11585/796978 DOI: 10.1016/j.ijbiomac.2020.11.194
Contraevidência central sobre bond builders: nenhum aumento de pontes dissulfeto no córtex foi observado.
- Artigo revisado por pares
Cosmetics (MDPI), 2024;11(5):150. Estudo comparativo entre Olaplex® e K18® em cabelo descolorido. Cosmetics 2024;11(5):150, 2024.
mdpi-res.com/d_attachment/cosmetics/cosmetics-11-00150/article_deploy/cosmetics-11-00150.pdf DOI: 10.3390/cosmetics11050150
O mecanismo atribuído aos maleatos é reportado pelo artigo a partir de patentes e fornecedores, não demonstrado de forma independente por ele.
- Patente
Pressly ED, Hawker CJ (Liqwd Inc.). Methods for fixing hair and skin — US 9,095,518 B2. United States Patent and Trademark Office, 2015.
- Norma regulatória
ANVISA / Ministério da Saúde. Resolução RDC nº 907, de 19 de setembro de 2024. Diário Oficial da União, 2024.
www.in.gov.br/en/web/dou/-/resolucao-rdc-n-907-de-19-de-setembro-de-2024-585939539
- Artigo revisado por pares
Mukkanna KS, Stone N, Ingram JR. Para-phenylenediamine allergy: current perspectives on diagnosis and management. Journal of Asthma and Allergy 2017;10:15–27, 2017.
pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC5261844 DOI: 10.2147/JAA.S90265
- Livro técnico
Robbins CR. Chemical and Physical Behavior of Human Hair, 5ª ed. Springer, 2012.
link.springer.com/book/10.1007/978-3-642-25611-0 DOI: 10.1007/978-3-642-25611-0
Nota metodológica: este conteúdo é informativo e não substitui uma avaliação presencial. Diagnóstico capilar, escolha de técnica e indicação de produtos dependem de teste de mecha e análise do fio e do couro cabeludo.
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